quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O ressuscitado

O ressuscitado
O ressuscitado


Eu vi Lázaro retornar dos Vales das Sombras. Vi com os meus olhos.  Sob a ordem do Rabi, removemos a grande pedra, e o olor deletério,  expulso  do  intestino  da gruta, foi  como  um  murro  no estômago. Retrocedi de asco e de pavor.

O Rabi dissera: “Lázaro, vem para fora.” Com os pés e as mãos atados ao sudário, o defunto saiu, desajeitado como uma enguia em terra,  arrastando-se  pela  superfície  áspera  e  pedregosa  de seu túmulo.

Os que se seguiram ao retorno de Lázaro foram dias tensos. Ele caiu num mutismo desesperador. Supúnhamos que Lázaro não gostara nada da experiência da morte. Seus olhos transpiravam os horrores que se ocultavam na eternidade prometida. Era evidente que Lázaro não gostaria de a ela retornar.

Certa   feita,   Lázaro   desaparecera.   Fora   encontrado   nas cercanias da herdade, babando como um lunático e rasgando, com os dentes  que  ainda  lhe  restavam,  o  tenro  abdome  de  uma  gorda ratazana.  Com  que  avidez  Lázaro,  meu  patrão,  sugava  e  extraía, alucinadamente,  do ventre do animal, o seu alimento! Lembro-me bem: era véspera do Sabá, e Marta e Maria haviam deixado Betânia às pressas, condoídas pela notícia da prisão do Rabi.

À  terceira hora, quando o solo tremeu (a partir de Jerusalém, porque era morto, naquele instante, o Senhor), os serviçais viram um Lázaro alucinado. O homem lacerava as vestes e se contorcia de dor. Sua tez estava pálida e de sua fronte escorriam grossas bagas de um líquido fétido e viscoso. E, das mãos e dos pés sudorosos, vi que fluía uma substância deletéria, de tonalidade verde-musgo. Os suores eram de  uma  pestilência  pungente, que enodoava  os  grossos  lençóis  e infiltrava-se até nas ranhuras do chão de ladrilho.

Então, num átimo, Lázaro gritou. Gritou porque suas carnes, de tão podres, se rasgavam; e sua alma, de tão aterrorizada, retornava ao Sheol, de onde nunca deveria ter-se evadido.

Eu, Levi, filho de Benjamim, fui o único que se atreveu a recolher  a  massa  pestilenta  em  que  se  convertera  o  cadáver  do ressuscitado.

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